quarta-feira, novembro 17, 2004

Situação dos bolseiros

16-11-2004 18:45:00.
Fonte LUSA.
Notícia SIR-6521358
Temas: Sociedade Timor-Leste Portugal estudantes


Timor-Leste:
Embaixada em Lisboa ajuda estudantes mais carenciados


Lisboa, 16 Nov (Lusa)
A Embaixada de Timor-Leste em Portugal prometeu hoje, em parceria com o Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento (IPAD), uma pequena ajuda financeira aos estudantes timorenses "mais carenciados" devido ao atraso no pagamento de bolsas de estudo.

"Dos poucos recursos que a Embaixada tem, decidiu dar uma pequena ajuda financeira, para os próximos três ou quatro dias aos estudantes mais carenciados" enquanto estes não receberem a bolsa, disse à agência Lusa a embaixadora de Timor-leste em Portugal, Pascoela Barreto.

Neste momento, "apenas 76 estudantes não receberam ainda a bolsa", indicou a Embaixadora que irá reunir-se com o presidente do IPAD, "com quem tem estado em contacto ao longo das últimas semanas".

O IPAD "terá que tomar medidas para que as bolsas em atraso sejam pagas o mais breve possível", afirmou Pascoela Barreto, ressalvando, no entanto, que os pagamentos só serão efectuados "aos bolseiros que têm os processos completos".

Entretanto, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, que tutela o IPAD, disse hoje que os "bolseiros timorenses estão a ser pagos por transferência bancária e prevê-se que a situação esteja regularizada até ao final da semana".

António Carneiro Jacinto acentuou que os bolseiros "têm de regularizar a situação junto das instituições bancárias" para que a transferência possa ser feita.

A embaixadora de Timor-Leste aconselhou os estudantes que ainda não entregaram os documentos necessários para a regularização da sua situação junto do IPAD "que o façam o mais rápido possível".

Os estudantes timorenses do ensino superior em Portugal manifestaram-se hoje junto da Embaixada de Timor-Leste em Lisboa, para reivindicar o pagamento de bolsas de estudo atribuídas no âmbito de cooperação entre os dois países, em atraso há dois meses.

SMS/MCL.

Lusa/Fim

Bolsa em Atraso

Público
17-11-2004
Pág. 32
Autor: Isabel Leiria



ESTUDANTES TIMORENSES
COM BOLSAS EM ATRASO

Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento garante resolução da situação ainda esta semana



A grande maioria dos 200 estudantes de Timor-Leste que estão a estudar em Portugal, ao abrigo de um protocolo entre os dois países, ainda não receberam as bolsas relativas a Outubro e Novembro. A prestação não é muito elevada - não chega a 300 euros por mês -, mas é deste apoio que muitos dependem exclusivamente.
"Sem a bolsa, morremos de fome", desabafava Agostinha, aluna do curso profissional de Hotelaria, ontem, à porta da Embaixada de Timor-Leste em Lisboa. Ao seu lado, cerca de três dezenas de outros" colegas relatavam as dificuldades causadas pelo atraso no pagamento das bolsas. "Não posso comprar o passe, não, posso tirar fotocópias dos apontamentos, não tenho nada", lamenta Nuno Santos, estudante de Relações Internacionais na Universidade Nova de Lisboa.
O Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento (IPAD), tutelado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros e responsável pelo processamento destes apoios, garante que, em relação a 141 casos, a bolsa ou já está a pagamento ou este será feito ainda na, corrente semana. -
O adido de imprensa do IPAD, Mário Miranda, acrescenta ainda que os restantes 61 processos dizem respeito a alunos que ainda não entregaram parte ou a totalidade dos documentos necessários à análise da sua candidatura.
O problema, refere Rute Ricardo, do Núcleo de Apoio ao Bolseiro da Embaixada de Timor-Leste, é que o processo de renovação das bolsas inicia-se em Setembro, quando em muitas escolas ainda está a decorrer a época de exames, e as notas podem ser só lançadas em Outubro. Ora, o certificado de aproveitamento do ano transacto é um dos documentos necessários para o pedido de apoio.
"O que fizemos foi solicitar a todas as escolas uma atenção especial à situação e que facultem as senhas de refeição ou o material de estudo necessário. Os estudantes pagariam depois quando recebessem a bolsa", diz Rute Ricardo.
A vinda deste contingente de estudantes timorenses - actualmente 88 frequentam o ensino superior e 144 o ensino profissional - foi proposta no final de 2000 pelo então primeiro-ministro António Guterres.
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terça-feira, novembro 09, 2004

Bolsa do IPAD

09-11-2004

19:16:00.
Fonte LUSA.
Notícia SIR-6501699
Temas: educação timor-leste
portugal política


Ensino Superior:
Estudantes timorenses reivindicam
pagamento de bolsas em atraso


Os estudantes timorenses do ensino superior em Portugal reivindicaram hoje, em Lisboa, o pagamento de bolsas de estudo atribuídas no âmbito de um acordo de cooperação entre os dois países, em atraso há dois meses.

"Não há qualquer justificação para o atraso e ninguém aparece para falar sobre o porquê do atraso do pagamento das bolsas", disse Aviano Faria, representante do Núcleo de Estudantes Timorenses da Universidade Nova (NETIN) de Lisboa, que advertiu para as dificuldades por que passam muitos dos bolseiros.

"Mais um mês ou dois sem bolsa, e a única alternativa talvez seja regressar a Timor-Leste", afirmou Aviano aos jornalistas.

Questionado sobre o futuro dos estudantes timorenses actualmente em Portugal, este representante sublinhou que "mais um mês sem receberem bolsa e abandonam a escola", uma vez que "assim não há condições para continuar a estudar".

"Não podemos voltar a ser vítimas desta política", acrescentou, sublinhando que o governo português prometeu cumprir os compromissos.

A maior parte dos estudantes timorenses em Portugal, e que vieram no âmbito deste acordo de cooperação entre os dois países, não recebem a bolsa desde o dia 08 de Setembro, assinalou.

Estas bolsas são financiadas pelo Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento (IPAD).

Segundo Aviano Faria, "o IPAD não dá quaisquer garantias sobre o pagamento da bolsa ou quando esta será paga" e "há situações de estudantes, nomeadamente em Fátima, a quem já foi cortada água e luz, porque não têm dinheiro para pagar".

Também Fidélia, uma estudante timorense que estuda Língua Portuguesa na Faculdade de Letras de Lisboa, observou que "não há explicação para não receber pagamento até agora", exigindo "explicações mínimas".

De acordo com Fidélia, que contactou a Embaixada de Timor-Leste em Lisboa, foi-lhe dito que os estudantes têm de esperar, "no máximo, dois meses".

"Precisamos de dinheiro para comer, para comprar o passe social, material escolar, e não temos", frisou.

Contactada pela Agência Lusa, a embaixadora de Timor-Leste em Portugal, Pascoela Barreto, disse que a Embaixada tem um núcleo de apoio aos bolseiros, mas é o IPAD quem atribui as bolsas.

Pascoela Barreto indicou que "os estudantes receberam o mês de Setembro e há realmente um atraso em relação ao mês de Outubro", acrescentando que "o mês de Novembro ainda não foi pago porque ainda está em curso".

Os estudantes "só recebem nova bolsa mediante análise dos documentos de aproveitamento entregues ao IPAD", sendo que "a Embaixada apenas faz de mediadora entre os estudantes e o Instituto", explicou a embaixadora.

Em relação aos atrasos, e segundo Pascoela Barreto, "estes podem também dever-se à demora da entrega dos documentos", uma vez que "muitos estudantes só os entregam no final do mês de Outubro".

Até lá - acrescentou - a Embaixada "apenas pode dialogar com os estudantes, nada mais".

Mário Miranda, do IPAD, disse que se trata de uma "situação meramente burocrática".

Até ao momento, explicou, os pagamentos eram feitos por cheque, mas o Instituto decidiu passar ao pagamento por transferência bancária.

No entanto, e segundo Mário Miranda, alguns atrasos referem-se a "situações de indivíduos em processo de renovação de bolsa" sendo que nalguns casos "faltam documentos", havendo apenas "um número mínimo" de estudantes nesta situação.

SMS.
Lusa/Fim

quarta-feira, outubro 20, 2004

Empresa e Telecomunicações

Diário Económico
20-10-04
Pág. 19
Autor: Ilda Matos


PT prevê lucros na operação de Timor no final deste ano

A Timor Telecom tem 25 mil clientes no móvel, 2100 no fixo e 500 na internet dial-up. Em 2003 investiu em rede 1,3 milhões de euros.

A Timor Telecom, empresa detida em 39,16% pela Portugal Telecom, prevê registar lucros no final deste ano, pouco mais de dois anos depois da sua criação.
Com perdas de 130 mil euros e um volume de negócios de 10,5 milhões de euros em 2003, a empresa conta actualmente com 25 mil clientes nas comunicações móveis e 2100 nos acessos telefónicos de rede fixa, estes últimos sobretudo ao nível das instituições e empresas que estão no país.
Ao nível da Internet, actividade que exerce em regime de concorrência, a Timor Telecom regista cerca de 500 clientes dial-up e 30 clientes nos acessos dedicados.
A TPT é um consórcio liderado em 76% pela PT Fonte: PTII
Segundo a Timor Telecom, o cliente tipo da empresa está ainda muito centrado nos estrangeiros que vivem no país, como quadros de empresas, embaixadas, organismos internacionais e também na classe média alta de Timor.
A empresa afirma que nos dois anos de operação cumpriu as metas definidas no contrato de concessão, sobretudo no que respeita à garantia de qualidade de serviço, desenvolvimento da rede e cobertura de rede fixa e móvel. A rede já cobre as treze capitais de distrito de Timor Lorosae.
A empresa, que tem sede em Díli, canta actualmente com 85 colaboradores.
O contrato de concessão da Timor Telecom foi assinado em Julho de 2002, e dá-lhe a exploração das telecomunicações por 15 anos, renovável por 10.
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Jornal de Negócios
20-10-2004
Pág. 40
Autor: (Não Assinada)

Telecomunicações
Timor Telecom atinge “break even” em 2004

A Timor Telecom, empresa do Grupo PT, prevê atingir o “break even” já em 2004, uma vez que as metas previstas no contrato de concessão relativas à cobertura, qualidade de serviço e desenvolvimento da rede foram alcançadas, avançou a operadora nacional em comunicado. A Timor Telecom, que comemora em 2004 dois anos de actividade, tem uma cobertura de rede fixa e móvel que abrange a totalidade das treze capitais de distrito de Timor Lorosae. Em 2003, a operadora registou 131,8 mil euros de prejuízos. As receitas foram de 10,5 milhões.
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Diário de Notícias
20-10-04
Pág. 42
Autor: (Não assinada)

Telecomunicações
“Break even” da Timor Telecom

A Timor Telecom, empresa participada em 39% pela PT, prevê atingir o break even em 2004, ou seja ao fim de dois anos de actividade. A operadora, que detém a concessão da exploração das telecomunicações em Timor por um período de 15 anos, registou 131,8 mil euros de prejuízos, em 2003, estimando atingir resultados positivos ainda este ano. No ano passado, as receitas foram de 10,5 milhões e os investimentos chegaram a 1,3 milhões de euros. A Timor Telecom, cuja gestão é assegurada pela PT, regista actualmente cerca de 25 mil clientes nas comunicações móveis e mais 2100 nos acessos telefónicos da rede fixa, estes últimos sobretudo ao nível das instituições e empresas em actividade no país. A empresa conta actualmente com cerca de 85 colaboradores, nove dos quais são portugueses. O crescimento dos recursos humanos deverá continuar por mais quatro a cinco anos.
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Jornal de Negócios
19-10-04
Pág. 8
Autor: (Não assinada)


COOPERAÇÃO
Participação do Icep na Harii
vendida à fundação de Baucau

A participação do Icep, 33,78% na Harii – Sociedade para o Desenvolvimento de Timor Lorosae foi alienada à Fundação de São José, da Diocese de Baucau, tal como o Jornal de Negócios noticiou que iria acontecer. A transferência da participação ocorreu por determinação do ministro de Estado das Actividades Económicas e do Trabalho, Álvaro Barreto. A par disto, o Governo considera que a Fundação São José é “a entidade dotada de especial vocação e capacidade para o relançamento do projecto societário em causa, bem como para o acompanhamento dos projectos a desenvolver”, diz em despacho publicado em Diário da República no passado dia 15.

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A Capital
19-10-04
Pág. 27
Autor: (Não assinada)

Timor-Leste

O representante do secretário-geral das Nações Unidas para Timor-Leste, o japonês Sukehiro Hasegawa, considerou ontem em Lisboa que a situação no país é “calma” a nível militar mas “frágil” porque as instituições do Estado ainda estão não bem estabelecidas.
Hasegawa realçou que a fragilidade actual de Timor-Leste prende-se com a ainda necessária ajuda de peritos internacionais em sectores-chaves como a estabilidade, a justiça ou a formação policial. Questionado sobre se o negócio do petróleo pode, de alguma forma, prejudicar a estabilidade do país, Hasegawa explicou que a ONU recrutou “peritos noruegueses para que aconselhem as autoridades timorenses quanto à forma como devem gerir as receitas”.

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Turismo e Filme

Diário de Notícias
14-10-04
Pág. 51
Autor: (Não assinada)


VIAGENS INTERNET
Turismo de Timor lança “site” oficial

A mais jovem nação do mundo, Timor-Leste, tem já disponível na Internet um site, em que dá a conhecer as suas potencialidades turísticas, em cuja concepção Portugal é um importante parceiro.
O site (www.turismotimorleste.com) contém versões em língua portuguesa e inglesa e proporciona um amplo conhecimento do país, da sua história e cultura, da oferta de alojamento e de informação sobre os programas disponíveis, desde o montanhismo ao mergulho, passando pela observação de aves, cetáceos e passeios a pé e de carro.
A promoção oficial do turismo timorense é um dos sectores da cooperação entre Portugal e Timor-Leste, e o Governo português disponibilizou um técnico de turismo para assessorar as autoridades locais nesta área. Outras contribuições importantes vieram do GERTIL -Grupo de Estudos e Reconstrução de Timor-Leste, da Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa e da Direcção dos Serviços de Turismo de Macau. Na mensagem de boas vindas em que desafia os turistas a «descobrir a mais jovem nação do mundo», o secretário de Estado do Turismo, Ambiente e Investimento, José Teixeira, citado pela Lusa, salienta que embora Timor-Leste ainda se encontre num processo de reconstrução, o turismo constitui uma das «ferramentas para um desenvolvimento sustentável da economia e da sociedade».
Uma visita regular ao site permite ao turista que deseja conhecer melhor Timor-Leste carregar da Internet mapas interactivos de todo o país, com a indicação dos percursos existentes, e ainda de fundos e protectores de ecrã, com motivos e fotografias timorenses.
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Público
14-10-04
Pág. 40
Autor: (Não Assinada)



Curta-metragem
“Timor Loro Sae”
distinguido na Grécia

“Timor Loro Sae”, de Vítor Lopes venceu o prémio para o Melhor Filme de Animação na competição internacional do 6º. Festival de Cinema e Vídeo de Thessalonica, Grécia. A curta-metragem “cruza as lendas da fundação da ilha com a história dos 500 anos de ocupação portuguesa e os 26 anos de resistência do povo maubere à ocupação Indonésia”, disse o realizador português. “Timor Loro Sae” estreou no Festival Avanca 2004, onde também foi distinguido.
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Livro

Diário de Notícias
12-10-04
Pág. 43
Autor: João Pedro Fonseca


A VIDA DE UMA MULHER AO LADO DO PRESIDENTE
Diário de uma paixão por Timor e por Xanana

Kirsty Sword dedicou-se à causa timorense e com ela cruzou-se toda uma paixão
Kirsty Sword era apenas uma de muitas centenas de jovens pelo mundo inteiro que se interessavam pela causa de Timor-Leste e queriam ajudar. Aproximou-se, conheceu os seus protagonistas, envolveu-se emocionalmente por alguns deles e dedicou-se à causa. Até que se apaixonou tanto, tanto, por Timor e por Xanana Gusmão, que acabou por casar com o líder histórico e agora vive em Díli, ao lado dos 800 mil timorenses, em liberdade, mas a aguardar melhores tempos.
A professora de línguas e companheira de Xanana tinha mesmo muito para contar, desde os seus primeiros momentos de ligação a Timor, quando fez uma curta viagem em 1990, até essa grande cerimónia que foi o 20 de Maio de 2002, em que se hasteou pela primeira vez a bandeira de Timor-Leste independente. O leitor interessado em conhecer Xanana Gusmão, o seu lado poético, sentimental, as dificuldades que encontrou desde os tempos em que esteve encarcerado na prisão de Cipinang, Jacarta, pode encontrar neste livro muitas respostas para as suas dúvidas, se bem que está a ler através dos sentidos, da cabeça, do coração de Kirsty Sword, uma australiana inteligente e determinada. Kirsty conta tudo, ou quase tudo. Aliás, aquilo que ela conta sobre a cerimónia da independência, com os pormenores práticos de uma nação pobre, quando ao saírem rapidamente de casa para Taci Tolo, onde se realizava a grande cerimónia, Kirsty percebe que não havia toalhas na casa de banho onde ficaria o casal presidencial português, que não embrulhara a prenda para o marido de Megawati Soukarnoputri, ou que Xanana levava uma gravata amassada no bolso, estão entre os aspectos que mais chamaram a atenção a Margarida Sousa Uva, que prefacia a obra.
Margarida, ela também mulher de um homem com cargo de grande exigência - a altura primeiro-ministro, agora presidente da Comissão Europeia - identifica-se muito com as preocupações e dificuldades de Kirsty. Talvez por isso, aproveite as páginas iniciais do livro para realçar essa luta constante, que é a de, no meio de tanta coisa importante, disputar a atenção do marido para si própria, ou para um assunto «necessariamente menor».
Ficamos a saber neste livro que Kirsty tem uma ligação a um homem que em Timor é venerado e considerado por muitos dos estudiosos da luta timorense como o responsável por um dos momentos mais importantes para Timor ter visibilidade internacional: Max Stahl.
Pois é, Kirsty fazia parte de uma equipa que ia fazer um documentário sobre Timor, procurando abrir os olhos do público britânico para a realidade do dia-a-dia dos timorenses sob o poder dos militares indonésios. Peter Gordon era o produtor, Max Stabl o operador de câmara e Kirsty a investigadora e intérprete. Ironia do destino, no dia em que Kirsty e Gordon regressam a Londres, 12 de Novembro de 1991, dá-se o massacre de Santa Cruz. Mas Max Stahl estava lá, registou imagens, conseguiu com grande perspicácia esconder as cassetes e transportá-las para o mundo ocidental. «Eu não tinha a certeza de acreditar no destino, mas parecia-me que, ao permitir-me apaixonar-me por Xanana, colocara a minha vida num caminho paralelo ao dele e, na verdade, ao de Timor-Leste. Eu tinha agora um interesse pessoal no futuro do País - a independência era mais que um objectivo político, era o objectivo que permitiria que Xanana e eu realizássemos os nossos sonhos pessoais.» Em Agosto de 1994 já Xanana e Kirsty confidenciavam por carta os seus sentimentos, ainda sem certezas nenhumas sobre o futuro. Como se verá na obra, muito caminho foi percorrido até que Xanana fosse libertado, em Outubro de 1999.
No final, Kirsty dá um mote para os tempos que virão. Realça a fragilidade da sociedade timorense, durante décadas dependente, mas procura uma luz no túnel. Em Timor, tudo está por fazer, haverá algo mais estimulante? A sua mágoa maior vai para a falta de tempo. Parece que se falavam mais quando Xanana estava preso...
Perfil
Kirsty Sword Gusmão
Professora


Kirsty Sword Gusmão é uma mulher determinada. Tinha pouco mais de 20 anos quando decidiu sair do seu país, várias vezes, dedicando-se às causas dos direitos humanos. Nasceu em Melbourne, Austrália, em 1966, onde se formou em Humanidades, na variante de indonésio e italiano. Depois de trabalhar na Internacional de Voluntários da Austrália, ingressou no Programa de Estudos sobre Refugiados da Universidade de Oxford. Viajou para Timor-Leste, com Max Stahl, em 1991, como redactora do documentário A Sangue-Frio: O Massacre de Timor-Leste. Entre 1992 e 1996 viveu em Jacarta, onde trabalhou como docente e activista dos direitos humanos. Foi nos anos em que trabalhou com a rede clandestina de apoio à independência de Timor que conheceu Xanana Gusmão, o líder histórico então preso em Jacarta. Casou com Xanana em 2000 e é directora da Fundação Alola, que apoia mulheres timorenses.
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terça-feira, outubro 12, 2004

Correio da Manhã
12-10-04
Pág. 25
Autor (Não assinada)

Timor
Portugal dá formação


No âmbito do acordo de cooperação bilateral na área da formação profissional, nove timorenses vão frequentar até 19 de Novembro, em Portugal, estágios de especialização. Pedro Fraga, director do Centro Nacional de Emprego e Formação Profissional (CNEFP), acrescentou ainda que beneficiarão da acção formativa o director-adjunto da instituição e oito monitores das quatro especialidades: electricidade, canalização alvenaria e carpintaria. Em projecto está a criação de três novos cursos: abate e desmancho de carnes, produção agrícola e restauração e a reconstrução de casas.
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terça-feira, outubro 05, 2004

D. Ximenes Belo e Nobel da Paz

Jornal de Notícias
05-10-04
Pág. 16
Autor: Paulo Pedroso

A coragem da recusa

O JN noticiou, ontem, que Ximenes Belo e Rigoberta Menchu subscreveram a candidatura ao Prémio Nobel da Paz de uma organização de militares israelitas que se recusa a combater nos territórios árabes ocupados em 1967.
Esse movimento, "A coragem de recusar", é constituído por 600 militares, incluindo comandos e pilotos da Força Aérea, mais de 200 dos quais já passaram pela prisão por não aceitar missões militares fora das fronteiras de Israel. Apela a uma desobediência ética baseada no direito individual de interpretação da injustiça de uma guerra. O que fere, evidentemente, os cânones das tradições militares. É, a vários títulos, um exemplo de uma nova cidadania.
Usualmente, os militares éticos são generais retirados ou convertidos em dirigentes políticos. Os seus manifestos exprimem, a posteriori, a sensação de horror que tiveram em missões em que participaram e o desencanto que a experiência de vida lhes trouxe.
Não é esse o caso deste movimento. Os seus membros não foram, são militares. Como escrevem na "carta dos combatentes" que lhes serve de manifesto, "sempre serviram nas linhas da frente e foram os primeiros a desenvolver missões de modo a proteger o Estado de Israel e a reforçá-lo". Tradicionalmente, quem não participa numa guerra injusta, não entra ou sai das forças que a conduzem. Mas estes militares, ao mesmo tempo que declaram que "não continuarão a lutar para além das fronteira de 1967 pelo domínio, a expulsão, a fome e a humilhação de um povo", afirmam que vão "continuar a servir as Forças de Defesa de Israel em qualquer missão que sirva a defesa de Israel". Auto-impõem-se um limite ético às operações militares em que aceitam ser inseridos.
A questão que assim se levanta é controversa. A tradição e o institucionalismo dizem que "à política o que é da política, aos militares o que é militar" e, portanto, os objectivos desta iniciativa cívica são, simplesmente, sinal de uma insubordinação.
Mas o problema, como sempre, coloca-se quando situações limite obrigam a escolhas morais fundamentais. Se um cidadão israelita, judeu, militar, sionista, considera que os seus valores são contrários ao tipo de guerra que é obrigado a conduzir contra um povo, cujo direito a existir e auto-administrar-se é reconhecido, como deve agir?
Tem um militar conscrito o dever de fazer uma guerra que choque com as suas convicções? Como pode participar na defesa do seu país de ataques dos seus inimigos recusando missões que não se insiram nesse mandato? Apenas com coragem.
Nesta nova formulação, é, afinal, a mesma que tiveram, em Portugal, os que desertaram da guerra colonial, os que fizeram o 25 de Abril e aquela que têm todos os militares que recusam a repressão ou missões que violem os direitos humanos. É a coragem de falar e reagir de modo não convencional quando a situação em que um cidadão é colocado colide com os seus direitos e deveres, nessa qualidade, que não pode ser interrompida.
No século XXI, uma das armas da superioridade democrática tem de ser a de que a cidadania se não suspende à porta de nenhuma instituição. Assim se honra a coragem que conduziu Rabin ao seu assassinato. Assim se derrotam as obsoletas diplomacias do cinismo e se afirma, no quotidiano, a modernidade e a viabilidade das causas que, sem forte impulso de cidadania, teriam morrido.
Não é provável que a "coragem da recusa" ganhe o Nobel da Paz deste ano, mas é significativo que os seus proponentes incluam apóstolos de duas causas perdidas que se ganharam, a da independência do povo de Timor-Leste e a do respeito pelos índios da América Central.
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D. Ximenes Belo e Nobel da Paz

Jornal de Notícias
04-10-04
Pág. 52
Autor: (Não assinada)

CANDIDATURA SUBSCRITA, ENTRE OUTROS,
PELO BISPO XIMENES BELO

Movimento israelita de militares proposto para o Prémio Nobel da Paz


O bispo timorense Ximens Belo subscreveu a candidatura do movimento judaico "Courage to refuse" ao Prémio Nobel da Paz, segundo a edição electrónica do jornal israelita "Haaretz", nas vésperas do arranque da semana anual da atribuição do Nobel. O movimento foi criado em 2002 por militares israelitas que manifestaram a sua recusa em cumprir missões nos territórios palestinianos ocupados. Conta hoje com 600 reservistas que apenas aceitam defender o seu país dentro das actuais fronteiras. No "site" da organização pode ler-se o lema: "Recusar por Israel". Além do apoio de Ximens Belo, co-laureado com o Nobel da Paz em 1996, a candidatura é igualmente subscrita por Rigoberta Menchu, laureada com igual mérito em 1992. David Zonshei, um dos fundadores do "Courage to refuse" - que em português se poderia traduzir por Coragem para recusar - comenta a candidatura defendendo que o movimento "representa uma vitória para todos os que amam Israel, e uma vitória para os valores sionistas e o espírito israelita, que tem prevalecido numa batalha intransigente para defesa do Estado de Israel a par da protecção da vida humana, dos direitos e da honra". Arik Diamant, director do movimento, considera que a candidatura "marca a linha que separa a recusa em participar
em acções ilegais que contradizem os valores judeus e a lei internacional, dos que querem continuar a ocupação", sublinhando que a nomeação traduz, ainda, "os princípios da liberdade, da justiça e da paz". A candidatura do movimento
surge num contexto em que as expectativas para o Nobel da Paz - revelado na próxima sexta-feira - se centram no reconhecimento do combate ao armamento nuclear. Segundo os especialistas, o comité poderá este ano premiar a Agência Internacional para a Energia Atómica, embora o presidente checo Vaclav Havel, o senador norte-americano Richard Lugar, o antigo senador democrata Sam Nunn, bem como o ex-chefe dos inspectores da ONU no Iraque, Hans Blix, sejam outras possibilidades. Hoje, porém, a academia sueca divulga o prémio da Fisiologia/Medicina; amanhã, será a vez do da Física; e na quarta-feira, o da Química. Outros dos prémios carismáticos diz respeito ao da Literatura, que está previsto para quinta-feira, embora a data deva ser confirmada amanhã. Nesta área, as expectativas vão para a possível atribuição a uma mulher: à argelina Assia Djébar, à norte-americana Joyce Carol Oates ou à dinamarquesa Inger Christensen. No entanto, o filósofo francês Jacques Derrida também se apresenta como um forte candidato. O anúncio do Nobel das Ciências Económicas está agendado para o próximo dia 11.
Como é tradição da academia, a divulgação dos galardoados será feita em Estocolmo, Suécia, com a excepção do Nobel da Paz, que acontecerá em Oslo, Noruega. A entrega formal dos prémios será no dia 10 de Dezembro, dia do aniversário da morte de Alfred Nobel, pai da dinamite e fundador dos galardões, em 1896. Além do diploma e uma medalha, os laureados vão este ano receber 1,10 milhões de euros.
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Fundação Oriente

O Dia
05-10-04
Pág. 18
Autor: (Não assinada)
Fundação Oriente
apoia educação em Timor

A Fundação Oriente está a apoiar 8oo estudantes finalistas da Universidade Nacional Timor Lorosae, que durante alguns meses efectuam um estágio junto da população timorense, em várias localidades do país.
O Programa de Estágio e Serviço Social é uma actividade académica inserida no currículo das licenciaturas daquela universidade, levada a cabo fora do campus universitário, envolvendo as vertentes educacionais, de investigação e de serviço comunitário. Pretende-se estimular a vivência dos finalistas no "seio do povo timorense" durante um largo período de tempo, permitindo-lhes adquirir uma valiosa aprendizagem através do seu envolvimento na vida quotidiana das comunidades.
Face às carências económico financeiras com que se debate a população, a Fundação Oriente, com delegação em Timor, financia o programa de estágio da universidade, com a doação de 2.500 sacas de arroz, colaborando desta forma para o efectivo desenvolvimento do país, através do apoio à formação académica dos seus jovens.
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quarta-feira, setembro 29, 2004

Artigos sobre Timor

Público (Economia)
27-09-04
Pág. 8

Autor: Margarida Matos Rosa



Educação: o desafio de Timor

O Governo de Timor-Leste é exemplar entre nações de baixo rendimento ao continuara eleger a Educação como sector prioritário no conjunto das suas políticas. Após o período 1999 a 2002, em que se lançaram os fundamentos desta jovem nação num esforço conjunto da UNTAET (a administração transitória, conduzida pelas Nações Unidas), timorenses e países doadores, continua a ser importante que os actuais Orçamento de Estado (OE) e plano trienal dêem ao sector educativo o maior peso relativamente a outros sectores. Portugal, ainda que muito mal classificado nos ankings da OCDE para a Educação, ironicamente pode dar um contributo decisivo para a melhoria da actual situação timorense nesta vertente.
Timor-Leste é constituído por cerca de 900 mil habitantes, dos quais pelo menos 300 mil, estima-se, vivem em meios urbanos, essencialmente em Dili. A população com idade inferior a 18 snos é cerca de metade da totalidade e 10 por cento desta vive abaixo do limiar de pobreza. Acresce que o crescimen-.o da população total se processa ao ritmo de três por cento ao ano e que o desemprego (estimado em seis por cento) pode aumentar drasticamente nos meios urbanos com a saída prevista da UNMISET (a missão das Nações Unilas em Timor-Leste) em Maio de 2005.
Não é necessário ser sociólogo para entender que um conjunto de indivíduos carenciados, muito jovens e urbanos, se não tiver um nível médio de escolaridade que facilite a inserção na sociedade, pode rapidamente tornar-se numa receita explosiva. Por isso a prioridade colocada neste sector que, a apresentar resultados no espaço de uma geração, poderá melhorar signi ficativamente a produtividade e nível de desenvolvimento do país. ,
A política do Governo timorense para este sector é, pelo menos, clara: atingir a escolaridade primária universal (de acordo com o consagrado na constituição) em 2015; desenvolver os níveis subsequentes de escolaridade, em particular o ensino técnico-profissional, de acordo com as necessidades do país; e promover a alfabetização dos adultos, tudo isto mantendo preocupações de igualdade de acesso entre meios urbanos e rurais. Os indicadores-base de escolaridade em Timor-Leste mostram uma evolução positiva, ainda que sejam dos piores relativamente à região do sueste asiático. Se metade dos adultos e 23 por cento dos jovens são analfabetos, as matrículas de crianças em idade escolar no ensino primário aumentaram de 51 para 75 por cento entre 1999 e 2003. Na vizinha Indonésia, bem como nos restantes países da zona, essa percentagem é de 99 por cento. A construção de escolas nos meios rurais e a reabilitação de muitas outras tem trazido muitas crianças ao sistema educativo. No entanto, não chega que lá estejam: deve-se melhorar os níveis de reprovação e de abandono, que são elevados (20 e 10 por cento, respectivamente).
O Governotimorense tem o mérito de ser explícito relativamente à grande prioridade da sua actuação. Com cerca de 43 milhões de dólares anuais para ela pretendidos em ajudas externas para os próximos três anos, e cuja obtenção dependerá em grande parte da vontade dos países doadores, a educação recolhe 18 por cento do OE, seguida pelos sectores da saúde (12 por cento), transportes (11 por cento) e energia (10 por cento). Entre os países de baixo rendimento, TimorLeste destaca-se pela positiva ao apostar nos seus recursos humanos. Também em Portugal se fala de tempos a tempos do exemplo irlandês na educação, mas a impaciência (criada pelos ciclos eleitorais) pelos resultados de curto prazo tem impedido a mobilização nacional emtorno do desígnio constante, de longo prazo, da educação como fonte de prosperidade de toda a sociedade.
Talvez por isso seja irónico pensarmos que Portugal teve emTimorumpapelifindamental nos anos 1999a2002 (em que o panorama era desolador) na reconstrução e reabilitação do sector educativo básico e que em fase agora de consolidação desses fundamentos possa desempenhar umpapel crítico -mas pode mesmo. Enquanto parceiro prioritário neste sector, Portugal deve estar atento às novas necessidades deste paísirmão e colaborar no desenvolvimento de programas escolares em português, na formação de professores (preterindo a favor destes o ensino directo aos alunos do ensino básico), porque não complementando a presença local de alguns formadores portugueses com muitos mais (e menos onerosos) à distância, através de sistemas de vídeo-conferência. Mais ainda, Portugal deve planear (e não mais ou menos remediar) esta sua colaboração com base nos desafios dos próximos anos, que serão já os do ensino secundário e universitário, bem como a gestão das expectativas profissionais destes jovens. Deve por tiltimofazer avaliações atempadas dos programas financiados, a fim de colaborar com ainda mais resultados no futuro.
Entre 1999 e 2004, Portugal foi o país que mais contribuiu para a educação em Timor, com cerca de 35 milhões de euros, ou seja 25 por cento do total gasto com a educação em Timor. Através do planeamento e coordenação com as autoridades timorenses, importa que esse contributo passe da importância do montante financeiro à eficácia dos resultados.

Margarida Matos Rosa, M.P.A. (Master in PublicAdministration) pela Princeton University;
Responsável pela área de gestão de activos institucional no BNP Paribas e membro de missão possível, grupo cívico de informação e opinião

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Diário de Notícias
24-09-04
Pág. 12
Autor: (Não assinada)

Timor precisa de livros em português
Encontro-me a leccionar em Díli, na escola Pré-Secundária Cristal. Esta escola à semelhança de mui­tas outras, não possui biblioteca. Tem apenas uma estante (na sala dos professores), na qual se encon­tram apenas livros em inglês, ofe­recidos pela Austrália. Os únicos li­vros em português são os manuais e gramáticas de Língua Portugue­sa que foram fornecidos à escola.
Já perceberam o que eu quero? Gostava de ajudar a fazer uma pe­quena biblioteca naquele mesmo espaço. Será que alguém tem por aí uns livros (de preferência literatu­ra infantil/juvenil, manuais esco­lares de várias disciplinas e ou­tros), revistas e jornais que já não fazem falta? Se tiverem enviem... Decerto que vão ser muito úteis aos meus alunos e aos meus colegas (professores timorenses). Se estiverem dispostos/as a fa­zê-lo aqui vai o endereço:

Embaixada de Portugal em Dili
a/c professora Ana Medeiros Díli
Edifício ACAIT
Av. Nicolau Lobato Díli - Timor Leste

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DESAFIO DA CPLP

Jornal de Notícia
26-09-04
Pág. 24 e 25
Autor: Orlando Castro


Pragmatismo brasileiro
conquista os países da
comunidade lusófona

CPLP - Lisboa deixa de figurar nas agendas dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa

Brasil assume, sem rodeios, a liderança da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) colocando o pragmatismo das relações bilaterais acima dos laços históricos que, assumidamente, constituem a principal "arma" de Portugal na cooperação com os cinco países africanos de expressão portuguesa, bem como com Timor-Leste.
Lula da Silva tentou em Julho, na cimeira de São Tomé e Príncipe, que CPLP desse passos importantes tendo em vista, entre outras variantes, um acordo comercial com o Mercosul. Porque, segundo o ministro brasileiro das Relações Exteriores, Celso Amorim, a proposta "não teve quaisquer avanços", o Brasil decidiu que as negociações devem decorrer Estado a Estado.
A decisão de Brasília colocou, de imediato, Portugal fora da corrida, ficando reservado a Lisboa, bem como à própria CPLP, o papel de concertação política, diplomática e cultural que, embora importante, não se traduz na resolução das mais prementes necessidades dos povos desses países.
Basta, aliás, verificar quem mais luta contra a pobreza e a fome (enfermidades que abalroam os países africanos) para perceber que o Brasil entendeu que a conquista de África se faz através dos milhões que têm pouco, ou nada, e não dos poucos que têm milhões.
Numa área em que Portugal poderia somar pontos, a da língua, verifica-se que o Instituto Internacional de Língua Portuguesa (IILP) continua a ser um projecto de intenções que se arrasta há 15 anos.
Segundo o novo director do IILP, o cabo- verdiano Manuel Brito Semedo, "os países devem assumir se querem realmente o Instituto e caso decidam que sim, têm que pagar as quotas". Isto porque, acrescenta, "em 2002 e 2003 apenas metade dos países pagou e 2004 apenas dois".
Lula da Silva caracterizou, na presença dos líderes de todos os países da CPLP, que esta é apenas uma organização vocacionada para a prevenção de conflitos e tensões e disse que o Brasil é que têm sido a locomotiva das relações com África.
O próprio presidente Jorge Sampaio reconheceu, na cimeira de São Tomé, algumas limitações de Portugal quando acentuou que "a língua portuguesa é um dos pilares da CPLP e o grande elemento político e cultural que Portugal tem para oferecer". Além disso, Sampaio salientou que a "CPLP debate-se com falta de recursos, sendo por isso necessário escolher muito bem e não haver dispersão, de modo a haver maiores possibilidades de concretizar processos".
Ao perceber que o Brasil está a "engolir" os países da CPLP, o Governo português tenta não perder a corrida e, nas Grandes Opções do Plano para 2005, dá especial realce ao "incremento das relações empresariais", bem como ao "reforço da presença política e económica" nos PALOP -Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa.
Na mesma linha, também o secretário de Estado da Cooperação, Henrique de Freitas, considera que "a cooperação tem de ter um lado económico que permita a dinamização do vector empresarial".
Seja como for, são visíveis os indícios de que os países africanos que integram a CPLP estão a substituir Lisboa por Brasília (e até mesmo por Madrid) em quase todos os processos de desenvolvimento.
Quando se pergunta a razão, os africanos dão vários exemplos. Um deles, talvez o mais paradigmático, refere-se a que o Brasil vai oferecer, a partir de 2005, os medicamentos que produz (são oito das 16 utilizados em todo o Mundo) contra a Sida a todos os portadores de HIV em Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.
Segundo um jornal caboverdiano, um dos aspectos que preocupam os portugueses é a aproximação de Cabo Verde ao Brasil, "sobretudo a intensificação das relações económicas com o Ceará, por parte das autoridades e empresários, rompendo o quase monopólio português sobre o comércio, para além das novas parcerias estratégicas que o primeiro-ministro anda à procura com os EUA, Angola, África do Sul e China".


Países africanos não olham a quem quer de facto ajudar

A passividade de Portugal contrasta com o dinamismo do Brasil e de muitos outros países que apostam forte nos mercados da Comunidade Lusófona.
O ministro brasileiro dos Negócios Estrangeiros, Celso Amorim, explica que, do ponto de vista de Brasília, as "negociações devem decorrer individualmente com cada um dos estados-membros da CPLP", desde logo porque este organismo "não é um grupo económico". O primeiro-ministro de Cabo Verde, José Maria Neves, gostava de ver Portugal mais empenhado, mas reconhece que o seu país não pode esperar mais. Cita, a propósito, que os casinos são uma grande aposta e que "o mais certo é serem investidores não lusófonos a avançar, estando bem encaminhadas as negociações com Macau". Também Xanana Gusmão acredita que Portugal poderia fazer mais, talvez. Crê, contudo, que por o petróleo "ser o grande motor do desenvolvimento de Timor-Leste, serão outros países a dar o seu contributo". O caso de Angola é um bom exemplo da cooperação portuguesa, e até mesmo da
CPLP. Todavia, para o presidente Eduardo dos Santos, "terá de ser a comunidade internacional a dar um decisivo contributo para erradicar a pobreza, a fome, o analfabetismo, as doenças e o subdesenvolvimento". Aqui o Brasil ganha terreno, porque tem uma política económica e social que se encaixa nas carências deste país.
O petróleo é igualmente importante para São Tomé e Príncipe onde, como reconhece o presidente Fradique de Menezes, os norte-americanos somam pontos "por conjugarem o investimento no sector com apoios paralelos em matéria de segurança do país". De novo, embora de forma ainda ténue, o Brasil poderá vir a dar um forte apoio a esta indústria.
Quanto a Moçambique, Joaquim Chissano defende uma forte adaptação "dos exemplos externos à realidade africana". Assumindo o bom momento das relações em o Brasil, Chissano mostra-se disposto a não esquecer todos os que querem ajudar, mesmo que sejam países pertencentes à Comunidade Britânica.


Cabo-verdianos procuram alternativas à tradicional cooperação com Portugal

As relações entre Portugal e Cabo Verde são sempre apresentadas como excelentes. Mas, será isso verdade? Embora do ponto de vista institucional se mantenha essa designação, é crescente a corrente de opinião caboverdiana que quer ver o seu país apostar noutras rotas. Os mais recentes casos de litígio foram o incidente, no aeroporto de Lisboa, com o presidente Pedro Pires e as divergências com os parceiros portugueses envolvidos na privatização da Electra (electricidade e água) e dos TACV (transportes aéreos). No caso de Pedro Pires, que foi mandado chamar à sala VIP quando aguardava embarque para a Líbia, para se submeter a um detector de metais, o embaixador caboverdiano em Lisboa, Onésimo Silveira, titulou o incidente de "humilhante".
O embaixador manifestou-se também contra a atitude alegadamente discriminatória de Portugal em relação aos africanos, em detrimento dos brasileiros e dos emigrantes da Europa do Leste.
Segundo Onésimo Silveira, ao contrário do passado, em que os cabo-verdianos eram vistos como uma comunidade, hoje são tratados como uma "minoria étnica, algo que não fica bem ao passado histórico de Portugal no seu relacionamento com a África".
De tordo com o director do jornal cabo-verdiano "Paralelo 14", Manuel Delgado, "a próxima comissão mista com a Espanha, que já deu múltiplos sinais de desejar que ela seja um marco nas relações de Cabo Verde com o único país europeu com que partilha fronteiras (via Canárias) - nomeadamente nas áreas de defesa e segurança -, poderá ser a última pedra no sapato e razão para que tanto os sectores coloniais nostálgicos do PSD como do PS retomem o seu anterior apoio em força ao MpD".
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Expresso (Economia)
25-09-04
Pág. 10
Autor: Braga de Macedo

ECONOMIA SUAVE
Governação Lusófona


A USENTE do obsidiante mundo dos padrões, a lusofonia não tem imagem estatística. E sem imagem estatística, não se existe na globalização comercial e financeira. Uma razão para esta inexistência global é julgarmos conhecer os oito países membros da CPLP como as nossas mãos. No imaginário lusófono, eles estão juntos na cultura e nos afectos: um é velho, outro é grande, os outros precisam de ajuda para crescer. Só que a história e geografia assim conotadas escondem o potencial de desenvolvimento porque não apreendem a governação - ou seja o modo como as instituições promovem o bem comum.
Ao coligir textos apresentados numa conferência em Luanda no princípio de Setembro, elaborei quadros comparativos. Das Perspectivas Económicas sobre África, cuja terceira edição acaba de ser publicada pela OCDE e o Banco Africano de Desenvolvimento, retirei comparações dos cinco com a média africana. Resulta que são mais pobres e têm exportações menos diversificadas mas recebem mais ajuda pública. Recebem menos investimento directo estrangeiro (excepto Angola e Moçambique) e têm menor cobertura na vacina contra a rubéola (excepto Cabo Verde e São Tomé e Príncipe). Mas, entre 1995 e 2002, cresceram mais do que a média continental (excepto Guiné-Bissau)
Num relatório sobre «Estados fracos», elaborado pelo Centro para o Desenvolvimento Global (CGD) em Washington, encontrei seis membros da CPLP caracterizados através de três indicadores de boa governação, a ausência de conflito, a capacidade de prover às necessidades básicas da população e a legitimidade política. A definição de conflito, referente ao período 1998-2003, afecta Angola, Guiné-Bissau e Timor-Leste. A capacidade é aproximada pela já referida taxa de cobertura na vacina contra a rubéola e Moçambique aparece agora acima da média de 73 países (mais de metade dos quais em África).
Quanto à legitimidade política, o CGD usa o indicador de «accountability» calculado no Instituto Banco Mundial (WBI) para 199 países com base em várias fontes, e que captura a forma como os governos são se leccionados e substituídos, incluindo a independência dos meios de comunicação, registando apenas Angola abaixo da média. Existem mais cinco outros indicadores do WBI que reflectem manifestações do estado de direito e do controlo da corrupção, bem como medidas da efectividade do governo e a qualidade da regulação. Revelam Angola e Portugal nos dois extremos, Guiné-Bissau, Timor-Leste e Moçambique um pouco abaixo e São Tomé e Príncipe, Brasil e Cabo Verde em cima da média mundial. O CGD nota ainda que Cabo Verde e Moçambique são elegíveis para a «conta do desafio do milénio» americana, assim chamada por causa dos objectivos de desenvolvimento do mesmo nome (ODM) e porque é condicional na boa governação.
Quanto à CPLP, depois da presidência brasileira (que criou um Conselho Empresarial), começou da melhor maneira a santomense, tendo a chefia do secretariado passado para Cabo Verde com Portugal durante a V Cimeira. Angola preside ao Conselho Empresarial e perspectivam-se mais ligações a afectos antigos asiáticos. Oxalá que, para bem da governação lusófona, passemos a estar presentes no mundo dos padrões!
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domingo, setembro 19, 2004

Opinião

Público
19-09-04
Pág. 8 + 9
Autor: Álvaro Manuel de Aragão Pereira de Athayde

Timor passou de moda

Digam lá em Portugal que mandem professores. Do que mais necessitamos é de professores. Este foi o recado. O homem estava a enterrar um filho. Nós estávamos a olhar para uma campa estranhíssima. Aproximadamente quadrada. Para aí com uns dois metros e meio de lado. Coberta por uma placa escura. Preta. Preto de queimado. Ao meio uma cruz com uns dois metros altura. Preta. Também de queimado

Timor passou de moda. Ouvi-o dizer em Díli, em Julho. Voltei a ouvi-lo dizer em Lisboa, em Agosto.
Passou? Se calhar passou! E porque não passaria?
O processo correu relativamente bem. A ONU está a desmontar a tenda. O que Portugal tem a fazer é desmontar também a sua. Até porque "aquilo" não interessa a ninguém, dizem. E só dá despesa, dizem. E é dinheiro deitado à rua, dizem. E é muito longe, dizem. E há outras prioridades, dizem. E o interesse nacional não passa por lá, dizem. E dá muita despesa, repetem. E é dinheiro deitado à rua, repetem. E se calhar até têm razão... Mas dói-me! Dói-me porque os timorenses pedem muito pouco. Pedem a língua e quem a ensine. Só isso. Mas esse "só" para eles é imenso. E "só" a diferença entre a vida e a morte. Se voltarem ao bahasa são absorvidos pela Indonésia. Se passarem ao inglês são absorvidos pela Austrália. Só sobrevivem em português. Por isso o adoptaram. Por isso pedem professores portugueses.
Eu ouvi o primeiro-ministro pedir professores portugueses. E o ministro da Educação pedir o mesmo. E a vice-ministra da Educação também. E o vice-ministro da Defesa. E vários deputados. E o reitor da Universidade Nacional de Timor
Leste (UNTIL). E vários professores timorenses da dita universidade. E os meus alunos de Engenharia Informática. E os de Engenharia Electrotécnica. E alunos de outros cursos e outros professores. E pais de alunos. E pessoas que encontrava aqui e ali. Em Díli e nas montanhas. E um homem a quem, na zona de Ermera, perguntámos o caminho para umas certas lagoas. E com quem acabámos por ficar à conversa bem mais de uma hora. A propósito de um nicho com um Santo António de Lisboa que estava naquela bifurcação de caminhos. Tinha data de 1987 o nicho. Feito em pleno período indonésio. Uma "questão de identidade" explicou o homem. Num português impecável. Os indonésios não nos deixavam falar português mas respeitavam a religião.
E um antigo enfermeiro que, estando nós a visitar o Cemitério de Santa Cruz, nos veio explicar o que devia ser mais que muito manifesto que não percebíamos. Que aquela estranhíssima campa era uma vala comum. Onde tinham sido enterrados os corpos das vítimas dos massacres de Agosto de 1975. Os da UDT e os da Fretilin. Tudo à mistura. E que ninguém sabia exactamente quem lá estava enterrado. Mas que aquela era, em Díli, a campa dos desaparecidos em Agosto de1975. E que todos os que tinham tido familiares desaparecidos nessa época ali vinham pôr flores e velas. E que vinham todos. Os da UDT, os da Fretilin os da Apodeti, os de coisa nenhuma. Tudo à mistura. Que se os mortos estavam à mistura não havia razão nenhuma para que os vivos o não estivessem também. E perguntado sobre o que estava ele a fazer no cemitério lá nos disse que estava a fazer o funeral de um filho. E mais disse que queria mandar um recado para Portugal. Eu sou escuro e o senhor é claro. Mas somos o mesmo povo. Veja os nomes nas campas. São nomes portugueses. E eram.
Os mais antigos que vi com datas de mil oitocentos e pouco. Somos o mesmo povo, disse. Mandem mais professores. Do que mais precisamos é de professores. Os indonésios fizeram-nos muito mal. Não nos deixavam falar português. A juventude quase não sabe falar português. E isso é muito mau. Digam lá em Portugal que mandem professores. Do que mais necessitamos é de professores. Este foi o recado. O homem estava a enterrar um filho. Nós estávamos a olhar para uma campa estranhíssima. Aproximadamente quadrada. Para aí com uns dois metros e meio de lado. Coberta por uma placa escura. Preta. Preto de queimado. Ao meio uma cruz com uns dois metros altura. Preta. Também de queimado. A placa coalhada de velas e de pétalas de flores. Velas acesas e pétalas frescas. Só fazia lembrar uma coisa hindu. Mas não podia ser. A nossa a perplexidade deveria ver-se, ouvir-se, cheirar-se. E o homem largou o funeral do filho e veio explicar-nos o que aquilo era. E como tinha sido em 1975. E que o coronel médico não queria a sair do hospital. Que não queria abandonar os doentes e os feridos. Que não queria ir para Ataúro. Que teve de ser levado a debaixo de prisão. Disse o nome do médico mas eu não fixei. Aliás disse imensos nomes. De pessoas e de lugares. Bem mais que duas dezenas. Que a este tinha acontecido isto, tinha fugido para ali e tinha sido morto acolá. Que àquele tinha acontecido aquilo, tinha fugido para tal sítio e tinha sido morto naqueloutro.
Histórias umas a seguir às outras. Todas muito semelhantes. Só diferiam no desfecho. Havia as do tipo "nome, fugiu para, morreu em" e as do tipo "nome, fugiu para, conseguiu escapar". Ele estava entre os que tinham conseguido escapar. Com uma perna partida e um tiro no peito. Mostrou a cicatriz. No fim daquilo tudo ficaram os corpos. Nas casas, nos quintais, nas ruas, nos campos, nas ribeiras. Corpos por todo o lado. A apodrecerem e a serem comidos pelos cães e pelos porcos. E que depois os tinham recolhido a todos. Ou ao que deles restava. E que os tinham enterrado a todos. Ali. Tudo à mistura. E que agora lá iam aqueles a quem tinha desaparecido algum familiar nessa altura. Iam ali. Porque ali estavam todos. Tudo à mistura. E que se os mortos estavam à mistura os vivos também podiam estar. E que tinha um recado para Portugal. E que o recado era que mandassem professores.
E agora dizem-me que Timor passou de moda e que mandar professores é muito caro. Quanto custa mandar um professor para Timor? Cem contos mês? Quinhentos contos mês? Mil contos mês? Cem parece-me claramente pouco. Mil parece-me claramente muito. Vou raciocinar na base dos quinhentos. Quinhentos por mês dá sete mil por ano. Por professor. Se forem cem professores dá setecentos mil contos por ano. Se forem mil professores dá sete milhões de contos por ano. Trinta e cinco milhões de euros. É muito dinheiro? Para mim é! Nunca na vida vi sete milhões de contos. Nem trinta e cinco milhões de euros. Nem espero vir a ver. Assustava-me! E para o Estado? Será que para o Estado trinta e cinco milhões de euros é muito dinheiro? Será que Portugal não tem capacidade financeira para pôr em Timor mil professores por ano? Durante, por exemplo, dez anos? Tem? Não tem? Não sei. Mil professores chegam? É pouco? E muito? Não sei. Dez anos chegam? É pouco? É muito? Não sei. Mas uma coisa sei! Deram-me um recado. Um recado que, parece-me, não é de uma, de duas, de três pessoas. Um recado que, parece-me, é de todo um povo. E o recado é: "Mandem professores."
PROFESSOR FUP/UNTIL NOS QUARTOS BIMESTRES DE 2002/03 E 2003/04
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Reportagem da Irlanda do Norte

Diário de Notícias
27-08-04
Pág. 17
Autor: João Cepeda


REPORTAGEM:
VIOLÉNCIA NA IRLANDA DO NORTE

Perfil do imigrante:
Os únicos dados estatísticos sobre a comunidade portuguesa são de um estudo de Anthony Soares. A maioria são homens solteiros, entre os 22 e 31 anos.

Timorenses vítimas:
Na Irlanda do Norte existe uma forte comunidade timorense, com centenas de imigrantes que têm também sido vítimas de acções de cariz racista.

Crianças agressoras:
Uma grande parte dos agressores são crianças entre os 9 e os 13 anos, que se julga serem incitados pelos pais, já que não respondem perante a justiça.


Ódio religioso convertido
em racismo contra portugueses

São uma comunidade invisível. Vivem e trabalham em terras inóspitas, sem que ninguém saiba quantos são, quem são e o que fazem. Em Lisboa e em Londres não há qualquer registo da sua existência. Por isso não votam, nem protestam. Trabalham de sol a sol, passam pelas mesmas condições difíceis das comunidades emigrantes em Inglaterra, mas enfrentam um problema adicional: o racismo. O DN foi ver e ouvir o martírio dos portugueses na Irlanda do Norte.

Portas e janelas partidas, paredes pintadas, carros incendiados, explosões, insultos e agressões. Durante anos, foram estas as palavras que serviram para descrever o quotidiano dos irlandeses do Norte. Por fim veio a paz, o entendimento entre católicos e protestantes e a esperança de que a violência popular seria enterrada juntamente com as armas. Não foi. Em vez disso, alguns preferiram transferir o ódio para outros alvos. Transformaram terrorismo em racismo, recuperaram velhas práticas criminosas e criaram novas vítimas na sociedade: os portugueses.
O resultado é assustador. Nos últimos dois meses, em apenas uma das cidades onde se concentra a comunidade lusa da Irlanda do Norte, Dungannon, a Polícia recebeu 14 denúncias de ataques contra portugueses. Todas justificadas com motivações racistas. Pior, é a própria polícia quem reconhece que existirão muitos mais casos fora destas estatísticas oficiais, que acabaram silenciados pelo medo de represálias ou simplesmente anulados pelas dificuldades de comunicação.
No bairro onde se concentra a maior parte dos portugueses, Belvedere, é fácil medir o pulso à situação. Tapumes de madeira escondem as portas e janelas que nos últimos dias foram partidas por pedras atiradas da rua. Manchas de tinta roxa, caixas de correio vandalizadas, fechaduras destruídas e cercas desfeitas são outros dos sinais através dos quais é possível identificar a casa de um português.
A situação atingiu tal ponto de violência que a polícia local, tal como o DN noticiou no início da semana, viu-se obrigada a montar uma operação especial de segurança para proteger a comunidade do nosso país. Agora, é «tolerância zero para os suspeitos de ataques», explica o inspector responsável pela área, Kenneth Mawhiney, que nas últimas duas semanas trabalhou quase em exclusividade neste problema.
O DN viajou até Dungannon, para saber, em primeiro lugar, de que estão a ser acusados os portugueses. «De nada», garante-nos Luís Botelho, um dos emigrantes com mais experiência no terreno. «É evidente que há sempre gente menos boa dentro de uma comunidade tão grande, como é a nossa, mas a maior parte destes ataques não têm a ver com isso. Acontecem sem razão. Esta gente é assim por natureza. Não todos, claro, mas alguns. Se nos tomam de ponta, não nos largam até nos verem pelas costas. São racistas», conclui sem hesitar.
À mesa do café central, onde diariamente se reúnem alguns dos quase dois mil portugueses residentes na região, Luís concretiza o que quis dizer com «não largar»: «Ameaçam-nos, insultam-nos, enxovalham-nos... Tudo!»
«SORTE É NÃO MORRER». Para quem optou por viver tão longe de casa, num sítio onde as nuvens escondem o céu durante todo o ano - mesmo em Agosto, os boletins meteorológicos dão «aguaceiros constantes e 11 graus de temperatura máxima» -, estar sujeito a este tipo de violência torna a vida difícil, quase insuportável. Os verdadeiros problemas, contudo, só surgiram há pouco tempo, quando os insultos tomaram a forma de ataques.
Avelino Oliveira, outro dos jovens trabalhadores que escolheram a longínqua ilha para porto de abrigo, é testemunha de uma dessas situações graves que entretanto se tornaram comuns. «Pegaram fogo ao meu carro. Tal como já fizeram a muitos [portugueses], partiram o vidro da frente com um martelo e depois atiraram lá para dentro uma garrafa com gasolina a arder.» Avelino não estava em casa quando o incidente ocorreu, mas confirma quem assistiu que acabou por ter «muita sorte», uma vez que o carro «estava quase encostado à janela de casa, que é de madeira, e isso podia fazer com que o fogo apanhasse a casa inteira».
Seguindo as instruções de um grupo de portugueses, encontrámos num beco ao lado do centro a carcaça de um dos carros queimados nas vésperas da nossa chegada. Novamente, foi a imagem da antiga Irlanda do Norte aquela que nos apareceu pela frente. «É para que o senhor veja... então os que têm matrícula portuguesa não há hipótese. São logo destruídos!», acrescenta Avelino. No meio disto tudo, completa, «a sorte é não morrer».
Quase ninguém acredita que o objectivo dos agressores seja esse. A prova é que nem sequer existe registo de agressões físicas. «Eles só nos querem pôr daqui para fora. Não têm por hábito bater nas pessoas, até porque sabem que isso lhes traria problemas com a justiça», conta Marisa, que também vive na zona com os seus dois filhos. «Às vezes acontece, mas é uma excepção.»
A excepção, que podia ter resultado no pior, aconteceu com um grupo de portugueses atacado no dia 15 de Agosto. Tal como é habitual, a praça central de Dungannon encheu-se, na madrugada desse sábado, com centenas de locais a circular em redor dos bares. Alguns portugueses que regressavam do turno da noite, na fábrica Moy Park (onde quase todos trabalham no processamento de carnes), decidiram fazer o mesmo e aproveitar uma noite rara sem chuva. Ninguém parece ter o relato fiel do que se passou a seguir, por volta das duas da madrugada, mas de acordo com a polícia, há dados suficientes para confirmar que um homem se aproximou dos portugueses com uma bomba artesanal de gasolina na mão, que acendeu e lançou para junto deles. A bomba não explodiu, felizmente, acabando por poupar os portugueses a qualquer dano que não o susto.
Na sequência do incidente, Garry Smith, um jovem de 21 anos com currículo feito em desacatos públicos, foi detido pelas autoridades e espera julgamento em liberdade, mas fora de Dungannon. «Foi proibido de entrar aqui», confirma a Polícia. Não se podem conhecer mais pormenores enquanto o processo decorre em tribunal. Apenas que Smith nega todas as responsabilidades e que a policia só o acusou de ter levado a cabo um ataque racista.
Na esquadra da Polícia, onde se formulou a acusação, perguntámos o que todos os portugueses daqui e organizações anti-racistas nos pediram para perguntar. «Quando alguém atira uma bomba deste tipo, inflamável, não se estará perante um crime mais grave? Não será tentativa de homicídio um crime mais adequado ao que se passou?» Não houve provas para tanto, justificou o mesmo inspector, depois de alguns segundos de silêncio. «Senão teria sido isso», garantiu.
«A POLÍCIA É DE TODOS». Bem-vindos à esquadra de Polícia de Dungannon. As palavras, tal e qual como aqui estão, na língua de Camões, estão impressas num cartaz colado no muro da esquadra, mesmo ao lado da estrela que simboliza o corpo de polícia da Irlanda do Norte. A intenção é receber melhor os portugueses que nos últimos quatro anos se tornaram uma parte substancial da comunidade local: mais de dez por cento de um total de 16 mil pessoas, estimam as autoridades. Apesar das boas-vindas em português, o aspecto geral da esquadra de Dungannon não podia ser menos acolhedor. Aliás, como quase todas as esquadras na Irlanda do Norte.
As décadas de violência e os atentados do IRA deixaram marcas que ainda não foram apagadas destes edifícios: os muros ultrapassam os dois metros de altura; há vigias nos cantos; dois postos de segurança na entrada e câmaras em todas as esquinas.
Ultrapassados estes controlos, entrámos na esquadra com o objectivo de perguntar o que estava a ser feito para estancar esta escalada de violência: «Tudo», garantiu-nos o inspector responsável pela super esquadra da região. «Estamos a dar ao fenómeno toda a atenção possível. Montámos uma operação especial de segurança direccionada às vítimas e assumimos uma política de tolerância zero em relação aos possíveis suspeitos destes ataques.»
Já na rua, foi o sargento Anderson quem acompanhou o DN numa visita aos pontos críticos. «Temos patrulhas reforçadas nestas ruas, distribuímos panfletos pela população emigrante e pela população local, "avisámos" os desordeiros do costume e até já retirámos das ruas todo o tipo de possíveis munições, como pedras e ferros que tinham ficado abandonados no entulho de construções antigas.»
Anderson é um dos mais experientes oficiais da zona. Aprendeu o trabalho com uma metralhadora na mão, sempre com medo que uma «surpresa» do IRA o matasse, como matou mais de vinte colegas seus. A tudo isso se habituou, mas não a lidar com o racismo. «Isto é um fenómeno completamente novo para nós. Não conhecemos as causas nem percebemos a razão, mas também não fingimos que o problema não existe. A Polícia é de todos, temos de estar cá para os defender».


«Fugir é dar uma vitória
aos responsáveis pelos ataques»

O nome é Paulo Fialho. Foi ele, juntamente com a família, o alvo do mais recente ataque racista contra a comunidade portuguesa na Irlanda do Norte. Por razões de segurança, esperando que os ânimos serenassem, as autoridades irlandesas decidiram escondê-lo dos olhares públicos e realojá-lo noutro local. O problema, porém, já não conseguiu esconder.
Dois dias depois do incidente, segunda-feira, Paulo quis fazer justiça à sua maneira e reapareceu nos média locais para contar tudo. Como os agressores lhe destruíram a entrada de casa enquanto a mulher e os filhos choravam e gritavam por ajuda; como estavam a ser constantemente insultados e ameaçados sem razão aparente. Horrorizado, o país ouvia mais uma história de racismo entre os seus. A primeira com um rosto.
Vinte e quatro horas depois, o DN também chegava a Portadown, 25 quilómetros a este de Dungannon. Paulo tinha aceite, pela primeira vez, contar detalhadamente como tudo se passou e continua a passar. «Somos vítimas de ataques e insultos sem dó nem piedade», adiantou na primeira conversa.
O compromisso, no entanto, acabou por durar pouco. Cansada, amedrontada sobretudo, a mulher de Paulo interrompeu a combinação e, «em nome dos filhos», impediu o marido de voltar a falar aos jornalistas. Pediu que não fizéssemos mais perguntas e nos afastássemos da família. Respeitámos. A voz e o pânico de Maria, como se identificou ao DN, eram informação mais que suficiente para perceber o ambiente que rodeia os portugueses exilados no Norte irlandês.
Pelas autoridades ficámos a saber um pouco mais sobre o caso. Por exemplo, que este pai de família, à semelhança de outros que passaram por situações idênticas, pondera mandar mulher e filhos de volta para Portugal. Uma medida prudente, inevitável talvez, mas seguramente uma desilusão para quem se preocupa pela escalada de violência racista neste país.
«Não se pode censurar quem opta por fugir, nem tão-pouco se pode ignorar que, ao fazê-lo, estamos a dar uma vitória aos responsáveis por estes ataques.» As palavras são de Júlio Rebelo, um recém emigrado na Irlanda do Norte que, ao contrário do emigrante tipo português, não trabalha em nenhuma fábrica de processamento de carne nem em qualquer outra indústria.
Júlio casou com uma irlandesa e desde essa altura, no início dos anos 80, que as suas visitas a Belfast são frequentes. «Durante todos estes anos nunca se viu portugueses por aqui. Era raro.» Há um ano, quando decidiu compensar a mulher pela distância de muitos anos, fixando-se na Irlanda do Norte, encontrou uma situação muito diferente: «Centenas, milhares talvez, de emigrantes portugueses. Com vidas difíceis e trabalhos duros.» Júlio decidiu então juntar-se a uma das muitas organizações que dão apoio aos imigrantes. É o seu trabalho a tempo inteiro. «O pior sintoma é esse: há muito que fazer.»
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30 de Agosto!

Diário de Notícia/Madeira
31-08-04
Pág. 15
Autor: (Não assinada)

Xanana Gusmão pediu maturidade política aos timorenses e lembrou que o país é um dos mais pobres do planeta

"Devemos recordar-nos, uma vez mais, de que este processo (de construção da nação) é muito difícil, exige trabalho duro, sacrifícios e a capacidade de distinguir o que pode ser feito de imediato e o que tem de esperar", declarou Xanana, referindo-se ao lento progresso económico.
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