Diário de Notícias
27-08-04
Pág. 17
Autor: João Cepeda
REPORTAGEM:
VIOLÉNCIA NA IRLANDA DO NORTE
Perfil do imigrante:
Os únicos dados estatísticos sobre a comunidade portuguesa são de um estudo de Anthony Soares. A maioria são homens solteiros, entre os 22 e 31 anos.
Timorenses vítimas:
Na Irlanda do Norte existe uma forte comunidade timorense, com centenas de imigrantes que têm também sido vítimas de acções de cariz racista.
Crianças agressoras:
Uma grande parte dos agressores são crianças entre os 9 e os 13 anos, que se julga serem incitados pelos pais, já que não respondem perante a justiça.
Ódio religioso convertido
em racismo contra portugueses
São uma comunidade invisível. Vivem e trabalham em terras inóspitas, sem que ninguém saiba quantos são, quem são e o que fazem. Em Lisboa e em Londres não há qualquer registo da sua existência. Por isso não votam, nem protestam. Trabalham de sol a sol, passam pelas mesmas condições difíceis das comunidades emigrantes em Inglaterra, mas enfrentam um problema adicional: o racismo. O DN foi ver e ouvir o martírio dos portugueses na Irlanda do Norte.
Portas e janelas partidas, paredes pintadas, carros incendiados, explosões, insultos e agressões. Durante anos, foram estas as palavras que serviram para descrever o quotidiano dos irlandeses do Norte. Por fim veio a paz, o entendimento entre católicos e protestantes e a esperança de que a violência popular seria enterrada juntamente com as armas. Não foi. Em vez disso, alguns preferiram transferir o ódio para outros alvos. Transformaram terrorismo em racismo, recuperaram velhas práticas criminosas e criaram novas vítimas na sociedade: os portugueses.
O resultado é assustador. Nos últimos dois meses, em apenas uma das cidades onde se concentra a comunidade lusa da Irlanda do Norte, Dungannon, a Polícia recebeu 14 denúncias de ataques contra portugueses. Todas justificadas com motivações racistas. Pior, é a própria polícia quem reconhece que existirão muitos mais casos fora destas estatísticas oficiais, que acabaram silenciados pelo medo de represálias ou simplesmente anulados pelas dificuldades de comunicação.
No bairro onde se concentra a maior parte dos portugueses, Belvedere, é fácil medir o pulso à situação. Tapumes de madeira escondem as portas e janelas que nos últimos dias foram partidas por pedras atiradas da rua. Manchas de tinta roxa, caixas de correio vandalizadas, fechaduras destruídas e cercas desfeitas são outros dos sinais através dos quais é possível identificar a casa de um português.
A situação atingiu tal ponto de violência que a polícia local, tal como o DN noticiou no início da semana, viu-se obrigada a montar uma operação especial de segurança para proteger a comunidade do nosso país. Agora, é «tolerância zero para os suspeitos de ataques», explica o inspector responsável pela área, Kenneth Mawhiney, que nas últimas duas semanas trabalhou quase em exclusividade neste problema.
O DN viajou até Dungannon, para saber, em primeiro lugar, de que estão a ser acusados os portugueses. «De nada», garante-nos Luís Botelho, um dos emigrantes com mais experiência no terreno. «É evidente que há sempre gente menos boa dentro de uma comunidade tão grande, como é a nossa, mas a maior parte destes ataques não têm a ver com isso. Acontecem sem razão. Esta gente é assim por natureza. Não todos, claro, mas alguns. Se nos tomam de ponta, não nos largam até nos verem pelas costas. São racistas», conclui sem hesitar.
À mesa do café central, onde diariamente se reúnem alguns dos quase dois mil portugueses residentes na região, Luís concretiza o que quis dizer com «não largar»: «Ameaçam-nos, insultam-nos, enxovalham-nos... Tudo!»
«SORTE É NÃO MORRER». Para quem optou por viver tão longe de casa, num sítio onde as nuvens escondem o céu durante todo o ano - mesmo em Agosto, os boletins meteorológicos dão «aguaceiros constantes e 11 graus de temperatura máxima» -, estar sujeito a este tipo de violência torna a vida difícil, quase insuportável. Os verdadeiros problemas, contudo, só surgiram há pouco tempo, quando os insultos tomaram a forma de ataques.
Avelino Oliveira, outro dos jovens trabalhadores que escolheram a longínqua ilha para porto de abrigo, é testemunha de uma dessas situações graves que entretanto se tornaram comuns. «Pegaram fogo ao meu carro. Tal como já fizeram a muitos [portugueses], partiram o vidro da frente com um martelo e depois atiraram lá para dentro uma garrafa com gasolina a arder.» Avelino não estava em casa quando o incidente ocorreu, mas confirma quem assistiu que acabou por ter «muita sorte», uma vez que o carro «estava quase encostado à janela de casa, que é de madeira, e isso podia fazer com que o fogo apanhasse a casa inteira».
Seguindo as instruções de um grupo de portugueses, encontrámos num beco ao lado do centro a carcaça de um dos carros queimados nas vésperas da nossa chegada. Novamente, foi a imagem da antiga Irlanda do Norte aquela que nos apareceu pela frente. «É para que o senhor veja... então os que têm matrícula portuguesa não há hipótese. São logo destruídos!», acrescenta Avelino. No meio disto tudo, completa, «a sorte é não morrer».
Quase ninguém acredita que o objectivo dos agressores seja esse. A prova é que nem sequer existe registo de agressões físicas. «Eles só nos querem pôr daqui para fora. Não têm por hábito bater nas pessoas, até porque sabem que isso lhes traria problemas com a justiça», conta Marisa, que também vive na zona com os seus dois filhos. «Às vezes acontece, mas é uma excepção.»
A excepção, que podia ter resultado no pior, aconteceu com um grupo de portugueses atacado no dia 15 de Agosto. Tal como é habitual, a praça central de Dungannon encheu-se, na madrugada desse sábado, com centenas de locais a circular em redor dos bares. Alguns portugueses que regressavam do turno da noite, na fábrica Moy Park (onde quase todos trabalham no processamento de carnes), decidiram fazer o mesmo e aproveitar uma noite rara sem chuva. Ninguém parece ter o relato fiel do que se passou a seguir, por volta das duas da madrugada, mas de acordo com a polícia, há dados suficientes para confirmar que um homem se aproximou dos portugueses com uma bomba artesanal de gasolina na mão, que acendeu e lançou para junto deles. A bomba não explodiu, felizmente, acabando por poupar os portugueses a qualquer dano que não o susto.
Na sequência do incidente, Garry Smith, um jovem de 21 anos com currículo feito em desacatos públicos, foi detido pelas autoridades e espera julgamento em liberdade, mas fora de Dungannon. «Foi proibido de entrar aqui», confirma a Polícia. Não se podem conhecer mais pormenores enquanto o processo decorre em tribunal. Apenas que Smith nega todas as responsabilidades e que a policia só o acusou de ter levado a cabo um ataque racista.
Na esquadra da Polícia, onde se formulou a acusação, perguntámos o que todos os portugueses daqui e organizações anti-racistas nos pediram para perguntar. «Quando alguém atira uma bomba deste tipo, inflamável, não se estará perante um crime mais grave? Não será tentativa de homicídio um crime mais adequado ao que se passou?» Não houve provas para tanto, justificou o mesmo inspector, depois de alguns segundos de silêncio. «Senão teria sido isso», garantiu.
«A POLÍCIA É DE TODOS». Bem-vindos à esquadra de Polícia de Dungannon. As palavras, tal e qual como aqui estão, na língua de Camões, estão impressas num cartaz colado no muro da esquadra, mesmo ao lado da estrela que simboliza o corpo de polícia da Irlanda do Norte. A intenção é receber melhor os portugueses que nos últimos quatro anos se tornaram uma parte substancial da comunidade local: mais de dez por cento de um total de 16 mil pessoas, estimam as autoridades. Apesar das boas-vindas em português, o aspecto geral da esquadra de Dungannon não podia ser menos acolhedor. Aliás, como quase todas as esquadras na Irlanda do Norte.
As décadas de violência e os atentados do IRA deixaram marcas que ainda não foram apagadas destes edifícios: os muros ultrapassam os dois metros de altura; há vigias nos cantos; dois postos de segurança na entrada e câmaras em todas as esquinas.
Ultrapassados estes controlos, entrámos na esquadra com o objectivo de perguntar o que estava a ser feito para estancar esta escalada de violência: «Tudo», garantiu-nos o inspector responsável pela super esquadra da região. «Estamos a dar ao fenómeno toda a atenção possível. Montámos uma operação especial de segurança direccionada às vítimas e assumimos uma política de tolerância zero em relação aos possíveis suspeitos destes ataques.»
Já na rua, foi o sargento Anderson quem acompanhou o DN numa visita aos pontos críticos. «Temos patrulhas reforçadas nestas ruas, distribuímos panfletos pela população emigrante e pela população local, "avisámos" os desordeiros do costume e até já retirámos das ruas todo o tipo de possíveis munições, como pedras e ferros que tinham ficado abandonados no entulho de construções antigas.»
Anderson é um dos mais experientes oficiais da zona. Aprendeu o trabalho com uma metralhadora na mão, sempre com medo que uma «surpresa» do IRA o matasse, como matou mais de vinte colegas seus. A tudo isso se habituou, mas não a lidar com o racismo. «Isto é um fenómeno completamente novo para nós. Não conhecemos as causas nem percebemos a razão, mas também não fingimos que o problema não existe. A Polícia é de todos, temos de estar cá para os defender».
«Fugir é dar uma vitória
aos responsáveis pelos ataques»
O nome é Paulo Fialho. Foi ele, juntamente com a família, o alvo do mais recente ataque racista contra a comunidade portuguesa na Irlanda do Norte. Por razões de segurança, esperando que os ânimos serenassem, as autoridades irlandesas decidiram escondê-lo dos olhares públicos e realojá-lo noutro local. O problema, porém, já não conseguiu esconder.
Dois dias depois do incidente, segunda-feira, Paulo quis fazer justiça à sua maneira e reapareceu nos média locais para contar tudo. Como os agressores lhe destruíram a entrada de casa enquanto a mulher e os filhos choravam e gritavam por ajuda; como estavam a ser constantemente insultados e ameaçados sem razão aparente. Horrorizado, o país ouvia mais uma história de racismo entre os seus. A primeira com um rosto.
Vinte e quatro horas depois, o DN também chegava a Portadown, 25 quilómetros a este de Dungannon. Paulo tinha aceite, pela primeira vez, contar detalhadamente como tudo se passou e continua a passar. «Somos vítimas de ataques e insultos sem dó nem piedade», adiantou na primeira conversa.
O compromisso, no entanto, acabou por durar pouco. Cansada, amedrontada sobretudo, a mulher de Paulo interrompeu a combinação e, «em nome dos filhos», impediu o marido de voltar a falar aos jornalistas. Pediu que não fizéssemos mais perguntas e nos afastássemos da família. Respeitámos. A voz e o pânico de Maria, como se identificou ao DN, eram informação mais que suficiente para perceber o ambiente que rodeia os portugueses exilados no Norte irlandês.
Pelas autoridades ficámos a saber um pouco mais sobre o caso. Por exemplo, que este pai de família, à semelhança de outros que passaram por situações idênticas, pondera mandar mulher e filhos de volta para Portugal. Uma medida prudente, inevitável talvez, mas seguramente uma desilusão para quem se preocupa pela escalada de violência racista neste país.
«Não se pode censurar quem opta por fugir, nem tão-pouco se pode ignorar que, ao fazê-lo, estamos a dar uma vitória aos responsáveis por estes ataques.» As palavras são de Júlio Rebelo, um recém emigrado na Irlanda do Norte que, ao contrário do emigrante tipo português, não trabalha em nenhuma fábrica de processamento de carne nem em qualquer outra indústria.
Júlio casou com uma irlandesa e desde essa altura, no início dos anos 80, que as suas visitas a Belfast são frequentes. «Durante todos estes anos nunca se viu portugueses por aqui. Era raro.» Há um ano, quando decidiu compensar a mulher pela distância de muitos anos, fixando-se na Irlanda do Norte, encontrou uma situação muito diferente: «Centenas, milhares talvez, de emigrantes portugueses. Com vidas difíceis e trabalhos duros.» Júlio decidiu então juntar-se a uma das muitas organizações que dão apoio aos imigrantes. É o seu trabalho a tempo inteiro. «O pior sintoma é esse: há muito que fazer.»
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